Conversa à noite

José Saramago diz em entrevista que leio agora que “a gente, na verdade, habita a memória”. Acho essa afirmação verdadeira. Eu vivo o meu presente aqui em Brasília, e vivo também em muitos outros tempos. Uma música que toca no rádio, uma frase ouvida, um trecho lido me repete para longe, no tempo e no espaço. Frequentemente estou em Pedreiras na casa dos meus pais que já se foram há muito. João Véio molha as plantas do jardim, Teresa está na cozinha fazendo o almoço, e minha avó, sentada na sua cadeira preguiçosa, toma conta de tudo, pois não confia nas empregadas. Ela nutre muitas desconfianças. Desconfia dos amigos da minha mãe, dos nossos amigos, e, sobretudo de índio, que ela considera “um bicho traiçoeiro”. Embora em Pedreiras não tenha índios, ela não se esquece dos muitos anos vividos na sua terra, Barra do Corda, cercada de índios, os Guajajaras e os Kanelas, e de ter escapado de morrer no chamado “barulho dos caboclos”, que foi quando os índios atacaram o povoado de Alto Alegre, pelo ano 1 ou 2 do século passado e mataram todo mundo de lá, começando pelos frades e freiras. Por vezes penso que vivi essa história, de tanto que a ouvi nos meus primeiros tempos.  Assim, vivo não só o tempo que vivi eu mesma, mas também os tempos dos outros, os seus muitos vividos que se tornaram nossos por ouvi-los muitas e muitas vezes. Agora nas tardes de sábado nós, uns cinco ou seis, nos reunimos para jogar pôquer aqui em casa. E nosso jogo é bom, a gente se diverte e noto que temos esse jogo real e muitos outros jogos que já foram jogados em outros tempos e com outros jogadores. Meu pai jogava muito até que, por artimanha de minha mãe, foi induzido a fazer uma promessa e deixar de jogar. Mas, certa vez, no tempo em que ainda jogava, precisava arranjar dinheiro para a viagem que minha avó fazia uma vez por ano à sua terra, para visitar seus filhos. E perguntou: “Dona Biluca, a senhora confia em mim?”  E minha avó, confusa: “ Claro seu Francisquinho, como não hei de confiar?” –“ Então, me dê o dinheiro que a senhora tem e deixe o resto por minha conta”. Minha avó deu, sob protestos tímidos de minha mãe, e ele saiu. Voltou de manhã. Com o dinheiro inicial da minha avó e o restante necessário para a viagem. Deve ter sido uma grande noite e um grande jogo.  Os nossos de agora não são tão emocionantes assim, mas são bons. E às vezes sinto por perto os irmãos que se foram, lembramos grandes jogadas, algumas paradas inesquecíveis, e muitos ditos que são saborosos por serem sempre repetidos quando as velhas situações se repetem, muitos dos quais nem sabemos a origem, como “ai, ai, minha roxinha!”, que dizemos ao chorar uma carta que pode ser a necessária para um flush. E como comecei com Saramago, termino com esse trecho dele, com o qual me identifico: “Vivemos num determinado lugar, mas habitamos outros lugares. Eu vivo aqui, em Lisboa, quando cá estou, e vivo em Lanzarote quando lá estou. Mas habitar, habitar, habito naquilo que seria - ou é - a aldeia. Não se trata, porém, desta aldeia, antes a aldeia da minha memória”. E aqui fico, por agora, no presente.