Lições do Dr. Skinner

A morte desde muito cedo entrou no meu imaginário. Acredito que fui influenciada pelos autores românticos em plena época modernista. Talvez. A velhice, porém, não entrava nos meus planos. Acho que pensava que morreria jovem. Pelos meus trinta anos, fui a um fotógrafo bom, em estúdio, tirar uma foto caprichada para deixar de lembrança para meus filhos. Delírio puro! Aos quarenta, casualmente, achei um livro do psicólogo Skinner sobre o envelhecimento. Este livro sumiu daqui de casa; devo ter emprestado. Foi quando acordei para o tema. Depois disso fui ficando atenta aos sinais e mais adiante comecei a seguir algumas das sugestões emitidas pelo autor naquele livro. Como, conforme já disse, perdi o livro, vou falar um pouco do que me lembro, sobretudo daquelas sugestões que pus em prática. Primeiro, para não ficar enlouquecida procurando as coisas perdidas pela casa e rezando para São Longuinho, passei a ter lugares certos para algumas coisas: uma caixa na mesa do corredor onde guardo as chaves do carro, lugar no meu escritório para deixar a correspondência, um pegador bonito para segurar as contas por pagar que depois de pagas são guardadas numa pasta. Isso não significa, aviso aos navegantes, sucesso total. Vez por outra me esqueço de pagar na data e me assusto com a cobrança. Agora mudei um pouco. Estou preferindo agendar o pagamento e está bem melhor. Tenho lido ultimamente que a rotina enfraquece os neurônios e se deve estar sempre fazendo coisas diferentes. Até concordo, mas deixo isso para outros atos. Alterar o trajeto ao andar de carro, experimentar receitas novas, ler muito. Mas a rotina que estabeleci para não perder as coisas deu tão certo que não pretendo trabalhar meus neurônios mudando os benditos lugares. Outra coisa importante que devemos reconhecer é que nossos sentidos esmaecem um pouco, a visão fica mais fraca, a audição, também e os nossos movimentos já não são tão rápidos, nossa agilidade diminui,  enfim essas mudanças reais que temos de enfrentar. O que devemos fazer para facilitar a nossa vida? Ter muito cuidado com a higiene tanto a pessoal como a de nossa casa e nos cercar de segurança. Assim, seguindo aqueles santos conselhos, pus barras de apoio nos banheiros da casa e mudei os vasos sanitários para a cor branca, pois assim fica mais fácil ver qualquer sujeira, mesmo para nossos olhos cansados. Meu próximo passo será mudar o piso dos boxes para uma cerâmica antiderrapante. Tirar um tapete de perto da cama foi uma coisa que tive de fazer e  me doeu, pois o tapete tinha sido presente de minha irmã querida, feito por ela. Mas está guardado com carinho. Uma recomendação do Dr. Skinner que acho muito engraçada e útil é quanto à maneira de ser carona, se sabemos dirigir. Segundo ele, devemos sentar de preferência no banco traseiro para evitarmos dar palpites na direção. Se sentar na frente, mais cuidado ainda com a língua. Saber envelhecer é uma arte que precisa ser pensada desde muito cedo, acreditem em mim. Ser independente é importante, embora desenvolver uma rede de proteção é tão importante quanto. Pessoas que nos ajudem nos trabalhos que não podemos mais fazer, pessoas que nos auxiliem quando adoecemos são ferramentas necessárias ao bom viver. E o melhor de tudo, ter amigos, cultivar as amizades, procurar manter a união com a família.  Assim, chego ao fim dessa conversa que está cheia de boas lições, digo por experiência. Não me agradeçam e sim ao Dr. Skinner. Vou até procurar aquele livro dele num sebo. Quem sabe tem mais coisa boa que esqueci. Até!