Limites de Jorge Luis Borges, tradução do Millôr Fernandes
De todas as ruas que escurecem ao pôr-do-sol, deve haver uma (eu não sei dizer qual), em que já passei pela última vez sem perceber, refém daquele Alguém
que, com antecedência, fixa leis onipotentes, ajusta uma balança secreta e inflexível, para todas as sombras, formas e sonhos tecidos na textura desta vida.
Se há um limite para todas as coisas, e uma medida, e uma última vez, e nada mais, e esquecimento, quem nos dirá a quem, nesta casa, nós, sem saber, já dissemos adeus?
Pela janela que amanhece a noite se retira e entre os livros empilhados que lançam sombras irregulares na mesa difusa, deve haver um que eu jamais lerei.
Há uma porta que você fechou pra sempre e algum espelho o esperará em vão; Há uma, entre todas tuas memórias, que agora está perdida além da evocação.
Você nunca recapturará o que o Persa disse em seu idioma tecido com pássaros e rosas, quando, ao pôr-do-sol, antes que a luz disperse, você quer pôr em palavras tantos inesquecíveis.
Ao amanhecer pareço ouvir o turbulento murmúrio de multidões crescendo e dissolvendo; tudo por que fui amado, esquecido, espaço, tempo, e Borges, vão me deixar agora.
Já postei esse poema do Borges aqui no blog há tempos atrás. Mas é tão bonito e diz tanto do meu momento atual que não resisti. Leiamos.
Até que enfim alguém de peso parte para a briga. O candidato a presidente da França, possivelmente eleito no próximo domingo, François Hollande, promete: aumentar em 15% o imposto que grava os lucros das entidades financeiras; obrigar os bancos a separar suas atividades tradicionais (captar dinheiro do público e emprestá-lo) de suas operações especulativas; proibir de forma expressa os produtos financeiros ditos "tóxicos" (grandes responsáveis pela crise de 2008); impedir que os bancos franceses tenham atividades em paraísos fiscais; e regular os bônus obscenos que recebem os executivos do setor. Está bom ou quer mais? Pra mim está ótimo. Assim que um país começar a mudar, os outros seguem. Parece que até a Angela Merkel começou a se tocar. Quero muito que nossos amigos “de olhos azuis” saiam dessa, pois não sou rancorosa.
Aqui a coisa está feia. Quem não está envolvido com o esquema do Carlos Cachoeira é o que devemos perguntar. E se a CPI é pra valer ou não. Sinto que cansei de tanta corrupção, de tanto descaso om a coisa pública, de tanta suspeição sobre as figuras ilustres (ou que deviam ser) da República.
Há muitos anos, tive um professor muito interessante e duas observações dele me ficaram. A primeira: “Não se deve olhar o mundo como as vacas que olham, olham, enquanto mastigam o seu capim, ruminam e na verdade nada veem”; a segunda era: “se você quer viver confortavelmente neste mundo, tranque-se em um quarto e dele não saia”. Claro que ninguém quer ter um olhar bovino nem viver trancado. Então, respondo a mim mesma, nessa conversa à noite: é bom saber mesmo que nos cause sofrimento. E além do mais vivemos mesmo em uma aldeia global e com os meios de comunicação de que dispomos atualmente sabe-se tudo, de todos e na hora em que acontece. Não há como fugir. Mas há como sonhar. E eu já nem sonho com um mundo bom, com igualdade e justiça. É o meu desejo, mas já não espero grande coisa nesses anos que me restam. Assim, sonho em ver o François Hollande ganhar a eleição na França, o Obama também ganhar em novembro nos Estados Unidos, que Israel e Palestina consigam se acertar (sonho difícil), e que essa cultura da corrupção que já não é aceita pela maioria do povo chegue aos dirigentes e homens de bem tomem o governo desta nossa nação brasileira. E sonho muitas outras coisas que nem vou enumerar para não parecer uma maluca de olhos nas estrelas. Mas tenho um sonho mais simples, e esse posso e espero concretizar: fazer pelo menos uns dois vestidos de seda para mim. Afinal, é meu aniversário.
1- "Todo o infortúnio de minha vida- não quero me queixar, mas fazer uma observação geral instrutiva- deriva, pode dizer-se, de cartas ou da possibilidade de escrever cartas. As pessoas dificilmente me têm enganado, mas as cartas sempre- e na verdade não só as de outras pessoas, mas as minhas próprias(...) A fácil possibilidade de escrever cartas deve - vista de um ângulo meramente teórico- ter causado no mundo uma terrível desintegração de espíritos. É, na verdade, um intercâmbio com fantasmas, e não apeenas com o fantasma de quem recebe, mas também com o nosso, que desenvolvemos entre as linhas que escrevemos, e ainda mais numa série de cartas onde uma corrobora a outra e pode recorrer a ela como testemunha. Como diabos teve alguém a idéia de que as pessoas podem comunicar-se umas com as outras por carta! Numa pessoa distante pode-se pensar, e uma pessoa próxima pode-se alcançar- tudo mais está além da força humana. Escrever cartas, no entanto, significa desnudar-se diante de fantasmas, coisa pela qual eles esperam avidamente. Beijos escritos não chegam ao seu destino, em vez disso são bebidos no caminho pelos fantasmas."!
Kafka, Carta a Milena
Do Cânone Ocidental, Harold Bloom, pág.584
2. Sobre Kafka
Franz Kafka nasceu em 3 de julho de 1883, na cidade de Praga, Boêmia (hoje República Tcheca). Viveu e estudou em Praga, tendo se formado em Direito, em 1906. Viveu apenas poucos meses fora de Praga, em Berlim e em Viena, em tratamento. Trabalhou como advogado na companhia particular Assicurazioni Generali e depois no semiestatal Instituto de Seguros contra Acidentes de Trabalho. Não se casou. Teve noivas, Felice Bauer, por duas vezes, e algumas mulheres na sua vida, Milena Jesenská, Julie Wohryzek e Dora Diamant. Escreveu muito e pouco publicou em vida. Pouco antes de morrer, pediu ao seu amigo Max Brod que queimasse os seus escritos - no que não foi atendido. Ficou tuberculoso aos 34 anos de idade e faleceu no sanatório de Kierling, perto de Viena, Áustria, no dia 3 de junho de 1924, um mês antes de completar 41 anos. Alguns de seus livros: A metamorfose, O castelo, O processo, Um artista da fome, Um médico rural, Na colônia penal.
Fonte: Modesto Carone, tradutor de suas obras, em Carta ao Pai.
. Na TV (HD Globosat) estão passando duas séries dinamarquesas que estou acompanhando com muito gosto. Uma é um thriller " The Killing" que além de ter uma trama muito interessante mostra a maneira como se dá uma investigação policial lá naquele país civilizado. A outra série, "Govermment", mostra os bastidores do governo. Imaginem que a candidata ao cargo de primeira-ministra da série anda pelas ruas de bicicleta. Só na Dinamarca!
. Li a Carta ao Pai, de Kafka. Não é ficção. Ele a escreveu mesmo para mandar a seu pai, o que não ocorreu. É tão triste, tão pungente! Imediatamente tive vontade de reler A metamorfose, a trágica história de Gregor Samsa que se vê transformado ao acordar em um grande inseto. Me parece que é também uma carta ao pai, só que ficcional. Ler Kafka é uma experiência um pouco além da simples leitura. É uma vivência angustiante.
. Briga no Supremo, abertura de CPI, ligações perigosas, mil teorias conspiratórias, eleições próximas. O ano promete. Quem viver, verá.
. Já fiz 23 sessões de radioterapia. Estou na reta final, pois faltam apenas 10. E tenho passado muito bem, graças a Deus. Breve voltarei à minha vida normal. Gosto de dizer, parabéns, Cléa! Parabéns, Cléa!
. Estou gostando da novela da Globo Avenida Brasil. Não sei até quando, pois as novelas começam bem e depois vão ficando chatas.
. É de estarrecer a decisão do Superior Tribunal de Justiça de inocentar o homem acusado de estuprar três meninas de 12 anos. A alegação de que as meninas já se prostituiam é de doer. Setores do Governo e do Congresso estão lutando contra a decisão macabra. Estou na expectativa de que haja uma reversão.
. Estamos já nos jogos finais das Superligas Masculina e Feminina. É cada jogo bom! A final do Feminino será entre Rio de Janeiro e Osasco. A do Masculino ainda está por decidir. Cruzeiro já está classificado e jogou melhor mesmo. Fiquei com peninha do Minas, time que gosto. Amanhã tem mais: Vôlei Futuro X Rio de Janeiro. Que vença o melhor. Gosto dos dois.
. A nova novela da Globo "Avenida Brasil" está ótima. Ainda bem. Eu estava um tempão, desde "O cordel encantado", sem ver novela de tão ruim que elas andavam.
. E os nossos demóstenes, hein? Será que ainda tem jeito para a política brasileira? Não acho que a corrupção vá deixar de existir. Mas tenho certeza que se houver punição, cassação, prisão, devolução de dinheiro roubado, o nível dos políticos melhorará.
. Estou lendo um livro difícil "O Som e a Fúria", de William Faulkner. O título é extraído da passagem de Macbeth em que se diz que a vida é "uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada". Dá vontade de largar o livro e ir logo ler Shakespeare. É o que farei brevemente, pois agora estou lendo um livro novo e relendo um outro. Depois de vencer este, porque é uma luta para entender: não se sabe o tempo, as personagens ora são crianças, ora já se foram, todo em diálogos curtos que pouco esclarecem porque não sei ainda quem está falando com quem e não localizo a quem se referem. Mas o livro é bom, tenho certeza, e não vou desistir. Logo pego o espírito. Depois vou reler Shakespeare.
Quando eu cursava ainda o ginásio, o ano letivo acabava quando as lições de História do Brasil estavam ainda na proclamação da República. O mesmo aconteceu durante todo o curso científico. Tanto que movimentos posteriores a essa data me são quase que totalmente desconhecidos. Descubro isso agora ao pesquisar sobre possíveis acontecimentos conspiratórios forjados que teriam ocorrido aqui, pois o desejo de saber sobre isso me veio da leitura de O cemitério de Praga, de Umberto Eco. O que estou escrevendo agora é fruto de uma pesquisa na internet, sujeita à correção mais do que bem-vinda daqueles que sabem história. Kleber e Paulinho, por exemplo.
Não vou entrar em revolução de 30, tenentismo, Revolução Constitucionalista de São Paulo, gaúcho amarrando cavalo em monumento do Rio de Janeiro, nada disso. É farinhademais para o meu pirão. Só vou falar que Getúlio Vargas era presidente do Brasil quando, em 1935, membros de partidos comunistas filiados à Aliança Libertadora Nacional tentaram tomar o poder no movimento que foi chamado Intentona Comunista. A rebelião foi rapidamente sufocada pelo governo Vargas, mas ficou para a sociedade a ameaça e o temor de uma possível tomada de poder pelos comunistas.
Em 1937, último ano de governo de Getúlio, havia grande movimentação dos partidos para escolha dos candidatos ao novo período governamental em eleição a ser realizada em janeiro do ano seguinte. Em setembro, realizou-se uma reunião da alta cúpula militar na qual foi apresentado o Plano Cohen, supostamente apreendido pelas Forças Armadas. Estavam presentes os generais Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, o general Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército e Filinto Müller, chefe de Polícia do Distrito Federal, entre outros. O documento foi atribuído à Internacional Comunista elevou a assinatura do comunista húngaroBela Kun (que governou a Hungria em 1919), nome depois modificado para Cohen (para dar um toque “judeu”?). A autenticidade do documento não foi questionada e dias depois o documento foi divulgado publicamente e alcançou enorme repercussão na imprensa e na sociedade. Eis um pequeno trecho do plano:
“No plano de violências deverão figurar, como já foi dito atrás, os homens a serem eliminados e o pessoal encarregado dessa missão. Todavia, tão importantes quanto estes serão os reféns, que, em caso de fracasso parcial, servirão para colocar em xeque as autoridades. Serão reféns: os Ministros de Estado, presidente do Supremo Tribunal, e os presidentes da Câmara e do Senado, bem como, nas demais cidades, duas ou três autoridades ou pessoas gradas. A técnica para a colheita de reféns será a seguinte: os raptos deverão ser executados em pleno dia, nas próprias residências, que serão invadidas por grupos de 3 a 5 homens dispostos e bem-armados e munidos de narcóticos violentos (clorofórmio, éter em pastas de algodão empapadas) e serão transportadas para pontos secretos e inatingíveis, com absoluta segurança. Em caso de fracasso, proceder ao fuzilamento dos reféns.(SILVA, p.283-4). Hélio Silva
Após isso, foi desencadeada uma forte campanha anticomunista. Era tudo o que Getúlio queria e precisava. Ele aproveitou a onda para fazer com que o Congresso decretasse mais uma vez o estado de guerra e, usando dos poderes que esse instrumento lhe atribuía, afastou o governador gaúcho Flores da Cunha, último grande obstáculo ao seu projeto autoritário. No dia 10 de novembro, a ditadura do Estado Novo foi implantada. O nome foi dado por analogia ao Estado Novo português, golpe dado por Salazar em 1933 e que estabeleceu um regime autoritário, conservador, antiliberal, antiparlamentar, antidemocrático e tudo mais de ruim que houver. O de Portugal durou até 1974. Aqui Getúlio Vargas fechou o Congresso Nacional, anunciou a entrada de uma nova era e de uma nova Constituição, que ficou conhecida como Polaca, por ter se inspirado na Constituição da Polônia de tendência fascista.
Bem, a coisa andou, o tempo passou e só em março de 1945, com o Estado Novo já em crise, o general Góes Monteiro denunciou a fraude que fora produzida oito anos antes, isentando-se de toda culpa. Segundo ele o plano lhe fora entregue pelo capitão Olímpio Mourão Filho. Este admitiu ter elaborado o documento, mas afirmando tratar-se de uma simulação de insurreição para ser utilizada no ambiente interno da Ação Integralista Brasileira (AIB). Ele justificou o silêncio diante da fraude em virtude da disciplina militar a que estava sujeito. Plínio Salgado, um dos ajudantes do golpe, disse que não denunciou para não desmoralizar as Forças Armadas, única instituição, segundo ele, capaz de fazer frente à ameaça comunista.
Assim, temos a nossa fraude conspiratória, pelo menos uma das reveladas. Temos outra, a das cartas Brandi, que estudarei e contarei depois. Espero que vocês gostem do que escrevi e se quiserem acrescentar mais informações , não se façam de rogado.
. É meio chato confessar os nossos preconceitos, que são na maioria das vezes pré-conceitos. Mas a verdade é que eu sempre impliquei um pouco com o pessoal do DEM lembrando sua origem: a ARENA. Mas conheci muita gente boa do PFL assim que me desfiz da minha implicância inicial. Isso no tempo em que trabalhei no Ministério da Educação, gestão do senador Marco Maciel. E admirei por muito tempo o senador Demóstenes Torres, que me parecia um cara sério, digno. E agora, José? Vai para a vala comum. Ao lado de tantos outros que me iludiram por muito mais tempo: José Dirceu, Aloisio Mercadante, Marilena Chauí, Agnelo Queiroz, xi! parece que só tem gente do PT. Perdão, Fafinha!
. A crônica do Ferreira Gullar desse domingo na Ilustrada, Folha de São Paulo, "Da fala ao grunhido", me consolou da tanta tolice que venho lendo sobre a Língua Portuguesa e seu ensino. É tudo o que eu gostaria de escrever se tivesse saber e talento para tanto. Mas só ler já me deu bastante alegria.
. O filme Habemos Papam, de Nanni Moretti, é muito bom. Não é uma comédia embora tenha momentos hilariantes, sobretudo quando entra o psicanalista do Papa. Um drama sobre a fragilidade humana? A crítica à Igreja Católica é tão delicada que quase não se percebe. Mas está lá. Enfim, um bom e inteligente filme. Michel Piccoli é o grande ator de sempre.
. O livro que nosso grupo de leitura vai discutir este mês é Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo. Muito bem escrito, mas dá uma tristeza! E o pior que ele não inventa nada, apenas conta a verdade sobre a nossa terra e a nossa gente: os destinos estão marcados. E não há como fugir.
A morte desde muito cedo entrou no meu imaginário. Acredito que fui influenciada pelos autores românticos em plena época modernista. Talvez. A velhice, porém, não entrava nos meus planos. Acho que pensava que morreria jovem. Pelos meus trinta anos, fui a um fotógrafo bom, em estúdio, tirar uma foto caprichada para deixar de lembrança para meus filhos. Delírio puro! Aos quarenta, casualmente, achei um livro do psicólogo Skinner sobre o envelhecimento. Este livro sumiu daqui de casa; devo ter emprestado. Foi quando acordei para o tema. Depois disso fui ficando atenta aos sinais e mais adiante comecei a seguir algumas das sugestões emitidas pelo autor naquele livro. Como, conforme já disse, perdi o livro, vou falar um pouco do que me lembro, sobretudo daquelas sugestões que pus em prática. Primeiro, para não ficar enlouquecida procurando as coisas perdidas pela casa e rezando para São Longuinho, passei a ter lugares certos para algumas coisas: uma caixa na mesa do corredor onde guardo as chaves do carro, lugar no meu escritório para deixar a correspondência, um pegador bonito para segurar as contas por pagar que depois de pagas são guardadas numa pasta. Isso não significa, aviso aos navegantes, sucesso total. Vez por outra me esqueço de pagar na data e me assusto com a cobrança. Agora mudei um pouco. Estou preferindo agendar o pagamento e está bem melhor. Tenho lido ultimamente que a rotina enfraquece os neurônios e se deve estar sempre fazendo coisas diferentes. Até concordo, mas deixo isso para outros atos. Alterar o trajeto ao andar de carro, experimentar receitas novas, ler muito. Mas a rotina que estabeleci para não perder as coisas deu tão certo que não pretendo trabalhar meus neurônios mudando os benditos lugares. Outra coisa importante que devemos reconhecer é que nossos sentidos esmaecem um pouco, a visão fica mais fraca, a audição, também e os nossos movimentos já não são tão rápidos, nossa agilidade diminui,enfim essas mudanças reais que temos de enfrentar. O que devemos fazer para facilitar a nossa vida? Ter muito cuidado com a higiene tanto a pessoal como a de nossa casa e nos cercar de segurança. Assim, seguindo aqueles santos conselhos, pus barras de apoio nos banheiros da casa e mudei os vasos sanitários para a cor branca, pois assim fica mais fácil ver qualquer sujeira, mesmo para nossos olhos cansados. Meu próximo passo será mudar o piso dos boxes para uma cerâmica antiderrapante. Tirar um tapete de perto da cama foi uma coisa que tive de fazer e me doeu, pois o tapete tinha sido presente de minha irmã querida, feito por ela. Mas está guardado com carinho. Uma recomendação do Dr. Skinner que acho muito engraçada e útil é quanto à maneira de ser carona, se sabemos dirigir. Segundo ele, devemos sentar de preferência no banco traseiro para evitarmos dar palpites na direção. Se sentar na frente, mais cuidado ainda com a língua. Saber envelhecer é uma arte que precisa ser pensada desde muito cedo, acreditem em mim. Ser independente é importante, embora desenvolver uma rede de proteção é tão importante quanto. Pessoas que nos ajudem nos trabalhos que não podemos mais fazer, pessoas que nos auxiliem quando adoecemos são ferramentas necessárias ao bom viver. E o melhor de tudo, ter amigos, cultivar as amizades, procurar manter a união com a família. Assim, chego ao fim dessa conversa que está cheia de boas lições, digo por experiência. Não me agradeçam e sim ao Dr. Skinner. Vou até procurar aquele livro dele num sebo. Quem sabe tem mais coisa boa que esqueci. Até!
. Vocês gostaram desse último poema da poeta polonesa Wislawa Szymborska? Eu gostei muito, embora seja terrível.
. Existe coisa mais terrível do que as mortes por assassinato de moradores de rua? Aqui em Brasília tem acontecido muito. E não vejo revolta, não vejo comentário nas redes sociais, nem editoriais nos jornais. Não sei o que pensar.
. Já para a mesmice do noticiário político há um mundo de folhas de jornais, de blogs, de notícias nas rádios. Ó raça!
. Estou relendo "A casa soturna", de Charles Dickens. É um belíssimo romance. Personagens fantásticos, crítica muito séria ao sistema judiciário inglês da época (século XIX) e que compaixão tem o autor pelos pobres. A gente fica com vontade de também ser bom.
. Premida pelo tempo, resolvi agora ler um autor novo e reler um livro querido. Acho que vai ser bom.
O TERRORISTA, ELE OBSERVA A bomba explodirá no bar às treze e vinte. Agora são apenas treze e dezesseis. Alguns terão ainda tempo para entrar; alguns, para sair. O terrorista já está do outro lado da rua. A distância o protege de qualquer perigo. E, bom, é como assistir a um filme. Uma mulher de casaco amarelo, ela entra. Um homem de óculos escuros, ele sai. Jovens de jeans, eles conversam Treze e dezessete e quatro segundos. Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta. E aquele mais alto, ele entra. Treze e dezessete e quarenta segundos. A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo. Mas o ônibus a encobre de repente. Treze e dezoito. A moça sumiu. Era tola o bastante para entrar, ou não? Saberemos quando retirarem os corpos. Treze e dezenove. Ninguém mais parece entrar. Um careca obeso, no entanto, está saindo. Procura algo nos bolsos e às treze e dezenove e cinqüenta segundos ele volta para pegar suas malditas luvas. São treze e vinte. O tempo, como se arrasta É agora. Ainda não. Sim, agora. A bomba, ela explode.
Tradução: Nelson Ascher (Versão realizada a partir da versão inglesa de Adam Czerniawski e da norte-americana de Magnus J. Krynski e Robert A. Maguire)