. Uma história exemplar: Henry Engler foi um guerrilheiro tupamaro que muito jovem, ainda estudante de Medicina, foi preso por 13 anos pela ditadura uruguaia, 11 dos quais numa solitária. Sofreu alucinações, foi diagnosticado com psicose delirante crônica. Mas, deu a volta por cima. Depois de solto foi para a Suécia e recomeçou seus estudos de Medicina. Em 2002, na Conferência Mundial sobre Alzheimer, em Estocolmo, apresentou um trabalho que revolucionou os estudos do cérebro (técnica pioneira para dedectar a presença da proteína amiloide, associada a esse mal). Atualmente divide seu tempo entre Suécia e Uruguai, onde mantém um centro médico para assistir gratuitamente a população.
.Uma história vergonhosa que está em todos os jornais: o capitão do navio italiano que abandona, com membros da tripulação, seus passageiros e foge num escaler. Pode haver ato pior? Duvido.
. Uma história de vaidade: A escritora Jennifer Egan, que ganhou o prêmio Pulitzer em 2011 com o livro "A visita cruel do tempo", diz em entrevista: "Pensei em como seria um livro contemporâneo sobre os choques do tempo, como eu poderia fazer o que ele (Proust) fez, mas sem precisar de milhares de páginas, até porque desse jeito ele já fez." Não é o cúmulo? Como se fosse possível repetir Proust? Mas a crítica diz que o livro dela é bom. Veremos.
. Uma história de vexame: o ENEM do MEC em todos os seus desdobramentos. Vamos ver agora com o novo ministro.
Ouvi essa música pela primeira vez ainda menina. Foi em um filme com o título À noite sonhamos, que contava os amores de Chopin e George Sand. Gosto dela sempre.
. Resolvi encarar esse tratamento para o câncer como quem faz um tratamento dentário. A gente tem um pouco de medo do dentista, sofre um pouquinho na hora da intervenção, e esquece logo em seguida. A não ser que esteja com dor. Aí é tomar analgésico, anti-inflamatório, o que preciso for. Assim estou tentando fazer. Aguardo uns resultados e depois é fazer o que tiver de ser feito e esquecer. Se não for assim, os dias que me restam, que já não devem ser muitos, ficarão perdidos. Aí, sim, é para lastimar.
. Tenho ido muito ao cinema. Fui ver As canções, documentário do Eduardo Coutinho e gostei muito. Alguns momentos chegam a ser dolorosos de tão reais que são os sentimentos que nos passam. Vi também Medianeiras, buenos aires na era do amor virtual e gostei muito também. Tenho gostado particularmente dos filmes argentinos. Um cnto chinês é uma delícia.
. Quando a gente pensa que já viu tudo de ruim, vê que não viu ainda não. O que está acontecendo com o Judiciário brasileiro, meu Deus? Uma pessoa muito inteligente que conheci dizia que o Supremo Tribunal Federal era o mais importante porque errava por último. Agora nem espera ser o último, vai errando de cara. E os juízes e desembargadores e suas indenizações milionárias? E a guerra entre associações de advogados e de juízes? Fica evidente pra quem quiser ver que a briga é em causa própria.
. Estou começando a ler O mal-estar na civilização, um texto curto do Freud. Como escreve bem. Aquela mesma pessoa minha amiga que falava que o Supremo era Supremo porque errava por último, uma vez me disse que Freud era conhecido no início mais como bom escritor do que por suas teorias. Era "o literato de Viena". E ele escreve belamente mesmo.
. Hoje na Folha da internete fiquei impressionada com a foto de uma senhora idosa procurando a nora que fuma crack. É triste demais: a foto e a história que está por trás. E acho um absurdo tratarem os drogados como fizeram aí em São Paulo. Não sei como se deve tratar drogado, só sei que não é com maus-tratos da Polícia.
Todos os dias descubro A espantosa realidade das coisas: Cada coisa é o que é. Que difícil é dizer isto e dizer Quanto me alegra e como me basta Para ser completo existir é suficiente.
Tenho escrito muitos poemas. Claro, hei de escrever outros mais. Cada poema meu diz o mesmo, Cada poema meu é diferente, Cada coisa é uma maneira distinta de dizer o mesmo.
Às vezes olho uma pedra. Não penso que ela sente Não me empenho em chamá-la irmã. Gosto porque não sente, Gosto porque não tem parentesco comigo. Outras vezes ouço passar o vento: Vale a pena haver nascido Só por ouvir passar o vento.
Não sei que pensarão os outros ao lerem isto Creio que há de ser bom porque o penso sem esforço; O penso sem pensar que outros me ouvem pensar, O penso sem pensamento, O digo como o dizem minhas palavras.
Uma vez me chamaram poeta materialista. E eu me surpreendi: nunca havia pensado Que pudessem me dar este ou aquele nome. Nem sequer sou poeta: vejo. Se vale o que escrevo, não é valor meu. O valor está aí, em meus versos. Tudo isto é absolutamente independente de minha vontade.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Octavio Paz, poeta mexicano, nasceu em 1914 na cidade do México, México. Ensaista,poeta, político, diplomata foi um antifascista ardente. Recebeu o Prêmio Nobel em 1990 e morreu em 1998.
Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. – Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. – Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. – Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece na crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. – Se eu morasse aqui, deixaria meus cabelos crescerem até o chão. – Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos, que não eram americanos nem suecos, e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários vestiam-se de ouro branco. A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. Quanto mais belos os brasiliários, mais cegos e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos. Não havia em nome de que morrer. Milênios depois foi descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos; eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos, e que, por serem fugitivos e desesperados, tinham em nome de que viver e morrer. Eles habitaram as casas em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa. – Esperei pela noite, noite veio, percebi com horror que era inútil: onde eu estivesse, eu seria vista. O que me apavora é: é vista por quem? – Foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construções com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete nos jornais. – Aqui eu tenho medo. – Este grande silêncio visual que eu amo. Também a minha insônia teria criado esta paz do nunca. Também eu, como eles dois que são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo meu Deus? – Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Mamãe, está bonito ver você de pé com esse capote branco voando (É que morri, meu filho). – Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria pra onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. – Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. – Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. – Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon... – Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. – Cadê as girafas de Brasília? – Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte. – É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la. [...]
Há quanto tempo não conversamos? Nem sei mais. O ano passou mais depressa do se poderia imaginar: horas, dias, meses e te digo, não apenas eu senti isso, até meu neto de 12 anos achou que o tempo estava rápido demais. Será que a rotação da Terra em torno do próprio eixo está diferente? Ou é aquela volta que ela dá em torno do Sol? A minha ignorância nesses e em outros assuntos é imensa e não sei a que atribuir tal rapidez. Só sei que o tempo passa de forma diferente ultimamente. Ainda mais que é um tempo em que se têm informações sobre quase tudo e instantaneamente. Matam o Bin Laden lá no Paquistão e já sabemos aqui na mesma hora. Há um tsunami no Japão e vemos as imagens da terra sendo arrasada pela onda gigante. Os árabes se revoltam e acompanhamos, esperançosos, os acontecimentos na praça Tahir e vemos a queda do Mubarach e outras que se seguem. O Kadhafi também morreu e de uma morte mal explicada, mas não se pode esperar muita gentileza de soldados rebeldes lutando contra uma ditadura de nem sei quantos anos. O mundo mudou neste 2011. Lembro que Castro Alves no poema Vozes d’África cantava: “Europa é sempre Europa, a gloriosa/a mulher deslumbrante e caprichosa/rainha e cortesã”. E por aí. Mas não é o que se vê agora, poeta. A Europa está pedindo arreglo e a África, infelizmente, continua a mesma que você denunciava. A maior novidade é o Brasil doar dinheiro para o FMI. Não é de espantar, Terêncio? Aqui as coisas melhoram, mas não melhoram ainda o suficiente. Mas tenhamos calma. Segundo dados da revista da CASSI, a economia brasileira cresceu 7,5% em 2010, o que deu um PIB de cerca R$3,6 trilhões. Para o Sistema Único de Saúde – SUS foram aplicados cerca de1,7% desse total, isto é, R$62,5 bilhões. O que dá, cruzando os dados, R$ 27 por brasileiro por mês. É pouco. Muito pouco. Saindo daqui do Brasil, vemos os indignados da Espanha lutando por empregos; nos Estados Unidos, o movimento Ocupem Wall Streetde jovens e não tão jovens e esse movimento se alastra por países da Europa; na França, quebra-quebra e novamente os países árabes voltam à cena:agora é na Síria que as pessoas desesperadas enfrentam a morte mas continuam insistindo na derrubada daquele terrível Bashar AL-Assad. Que vai cair, vai. É só questão de tempo. Se há novidades por aquele Oriente, outras situações permanecem iguais e sempre perigosas: Palestina X Israel, Irã X Estados Unidos e Israel, Coréia do Norte X Coréia do Sul. E lá nesse último então, com aquele bebê general no poder, tudo pode acontecer. Mas as revoltas são animadoras. O capitalismo está em cheque hoje, como já esteve o comunismo antes e é bom ver que a revolta contra o sistema financeiro é séria e esperamos que dê frutos. O homem tem de ficar à frente do dinheiro.
Sob esse aspecto, a ano foi bom. Ver cair ditador é uma coisa prazerosa. Como é bom também ver cair ministro corrupto, o que aconteceu bastante por aqui. Ainda não é o suficiente, mas é sempre um começo. Bom será quando os corruptos começarem a devolver o que roubaram e pagarem suas penas como todo criminoso. Para mim, pensando diferente da presidente Dilma, a corrupção não é um simples malfeito, é crime mesmo. Nada de eufemismo. E o que está acontecendo no Judiciário é de estarrecer. Mas, deixa pra lá. A presidente vai bem, dentro do que se poderia esperar em face das mudanças ocorridas no cerne do PT e das alianças feitas. Está correndo de novo aquele discurso ufanista, Terêncio, que lembra o Brasil Grande dos militares, das transamazônicas inacabadas, das obras faraônicas. E me assusta. Detesto ufanismo como detesto essa ameaça de refrear a liberdade de imprensa; é verdade que vem com outros nomes e justificativas mis, mas é perigoso. Falando em liberdade de imprensa, não sei o que pensar da Argentina e da queda de braço entre a Cristina Kirchner e o grupo Clarin e aquele negócio de monopólio de papel. Sai do Clarin e vai pro Estado? Está certo um grupo privado ter monopólio de papel? Ou o Estado? Terêncio, não entendo mesmo a Argentina, mas tenho gostado muito da arte que vem de lá. Dos filmes e dos autores novos que tenho conhecido. O filme Um conto chinês é uma delícia de bem feito e o livro As nuvens, de Juan Jose Saer foi um dos melhores que li este ano. Falando no que li, amei a saga As Crônicas de Gelo e Fogo: A Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis e a Tormenta das Espadas. Vem mais por aí em 2012. Para quem gosta de aventura é tudo de bom. Não vou fazer este ano minha lista de filmes e livros, Terêncio. Filmes vi poucos, livros li um pouco mais, masestou sem disposição de fazer listas e de fazer propósitos de ano novo. Nunca os cumpro. Sei que você não gosta de televisão, mas não custa te falar da novela da Globo, O Cordel Encantado e do seriado Tapas e Beijos. Ótimos! Para nós, em família, foi um ano bom até quase o final, quando perdemos um irmão muito querido. O Juarez, Terêncio, que você bem conheceu. Aí, ficou tudo muito triste, mas já estou superando devagarzinho. E você acredita que me apareceu, já no finalzinho do ano, um câncer na mama? Os prognósticos são bons, não fique aflito, e logo, logo estarei livre. Breve estarei escrevendo novamente pra você, caro amigo, a quem não vejo há tanto tempo e que não desejo rever. Quero que você fique na minha lembrança como te vi pela última vez, assim como quero que você se lembre de mim da mesma forma. Tudo de bom, Terêncio! E feliz Ano Novo!
Vicente Sá, meu irmão poeta, me mandou um cartão de Natal com uma poesia dele tão bonita que resolvi dela me apropriar e encaminhar a todos os que acompanham este blog com os meus votos de feliz Natal. Ei-la:
. Brasília voltou a ter cinemas. Foram inauguradas 5 salas patrocinadas pelo Banco Itaú, na Casa Park. Agora não teremos apenas filmes comerciais.
. Hoje vi um belo filme Minhas tardes com Margueritte, com Gerard Dépardieu, bom como sempre. É um filme doce que acalenta o coração. Vale a pena.
. Estou lendo O cemitério de Praga, do Umberto Eco e gostando. É um bom presente de Natal para quem gosta de ler. Fica a dica.
. Como joga bem o Barcelona. Dá gosto ver o toque de bola, os passes sempre certos. Bem que eu queria que o Santos tivesse feito pelo menos um gol de honra. Infelizmente não deu.
Por algum motivo que ainda não se sabe explicar direito, genética, modo de vida, ou qualquer outra coisa, as minhas células vez por outra ficam desordenadas e causam uma doença. É um pouco duro dizer o nome, mas não adianta fugir pois não é crime, crime é ser corrupto. O nome é câncer. É a terceira vez. Como, até por saber dessa possibilidade, faço acompanhamento médico com regularidade, tenho tido a bênção de descobrir a doença ainda no começo e com isso ficado boa. Espero ficar bem também dessa vez. Estou contando isso não é para vocês ficarem com peninha de mim, coisa que detesto. Nem sei bem porque estou contando, talvez precise de alguma coisa, alguma coisa que não sei definir ainda e, portanto não sei como pedir. Minha mãe me contava que ainda na minha primeira infância, quando eu me machucava e estava chorando, se alguém dizia coitadinha, eu parava imediatamente de chorar e brigava, coitadinha, não, eu não morri!. Acho que despertar pena não é uma coisa boa, parece que quem merece piedade está em posição de inferioridade, sei não. Acho que a compaixão dos budistas é um pouco diferente, tem mais conotação de solidariedade, de empatia. Ah! Acho que já sei o porquê de estar falando nesse assunto tão duro, tanto pra quem escreve como pra quem lê: é a história de nos sentirmos culpados por nossas doenças, como se elas fossem um castigo, como se fôssemos totalmente responsáveis por ela. Sempre podemos ter um pouco de responsabilidade, reconheço. Se a gente não se cuida, faz muita extravagância, mas castigo não é não. Eu não considero, talvez uma fatalidade. Susan Sontag tem dois livros excelentes sobre esse árduo tema “A doença como metáfora” e “A Aids como metáfora”. Eu os ganhei de meu querido Marcello e vou até relê-los agora. Estou um bocado triste e também preocupada. Mas tento me distrair. E vou tentar ainda mais. Tenho lido, ido ao cinema, jogado gamão. E gostando muito de ficar em silêncio. No princípio do ano farei uma cirurgia para tirar o tal tumor e logo ficarei boa, se Deus quiser. Não me levem a mal se eu voltar a esse assunto. Talvez escrever me ajude e estou precisando de toda ajuda que puder encontrar. Mas farei o possível para não ficar chata. Até!
Apresento a vocês a cantora Nubia Lafayette, sucesso nos anos sessenta. Era uma das grandes cantoras românticas, para alguns "brega", daquele tempo. Ultimamente voltei a me interessar por essas músicas. Quando começou? Não sei bem. Talvez com a abertura da série de TV Tapas e Beijos, com o filme O Palhaço, enfim, sei não. Sei que estou achando uma delícia procurar no youtube e descobrir gente e músicas que eu pensava nunca mais ouvir. Gosto de compartilhar com vocês os meus interesses, o que não significa que espere que vocês gostem. Mas espero que se divirtam e escutem, sem preconceitos, a sua bela voz.
A morte não é nada. Apenas passei ao outro mundo. Eu sou eu. Tu és tu. O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste. Fala-me como sempre me falaste. Não mudes o tom a um triste ou solene. Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos. Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo. Que o meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra. A vida continua significando o que significou: continua sendo o que era.
O cordão de união não se quebrou. Porque eu estaria fora de teus pensamentos, apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe, Somente estou do outro lado do caminho. Já verás, tudo está bem. Redescobrirás o meu coração, e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e se me amas, não chores mais.
Na verdade, a passagem acima é de autoria controversa. 1. Mundialmente, em pelo menos três idiomas (inglês, italiano e espanhol), o texto é atribuído ao religioso católico argelino, radicado na Itália, Santo Agostinho de Hipona (354 a 430), em pelo menos duas versões. 2. De outro lado, é tido como um sermão pregado na Catedral de St Paul's, em Londres, no domingo 15 de maio de 1910, na sequência da morte do Rei Eduardo VII, pelo pároco da Catedral de St. Paul (Londres) e professor de Teologia da Univerdade de Oxford, na Inglaterra, Henry Scott Holland. 3. Em terceiro lugar, consta como de autoria do padre Giacomo Perico (Ranica, 1911 - Milão, 2000), um sacerdote da "Companhia de Jesus" desde 1940, organização católica especializada em questões de bioética e da vida social e familiar, fundada em 1946. Em 1960, Perico criou o "Instituto Giulio Salvadori" e suas obras mais populares tratam de aborto, ética médica e direito à vida. 4. Finalmente, um texto semelhante é encontrado no livro "Setembro" (Bertrand Brasil, 16a. edição, Tradução de Angela do Nascimento Machado, pág. 450), da autora Rosamunde Pilcher, uma escritora inglesa nascida na Cornualha (24/09/1924) e falecida aos 85 anos depois de uma carreira bissexta, em que seu mais famoso livro foi "Os Catadores de Conchas", publicado em 1987, aos 63 anos de idade. À falta de uma fonte precisa, que credite autoria a Santo Agostinho, faço este registro para conhecimento dos leitores, eis que impossível sanar a dúvida.
. E continuam as manifestações contra os governos pelo mundo todo: europeus, árabes, americanos do norte, americanos do sul, todos protestam. No Egito, contra a junta militar; nos Estados Unidos, contra o sistema financeiro, na Espanha, por empregos e por aí vai. Hoje, aqui, em Brasília, moradores de Planaltina protestaramm contra o péssimo serviço de transporte, que na verdade é um dos piores do Brasil. Como aquele anarquista que não sei o nome dizia "hay gobierno, soy contra", assim estou eu. Solidária com todos os movimentos.
. Segui a sugestão do Marcello e fui ver O Palhaço. Amei. O enredo, o trabalho dos artistas, a trilha sonora com aquelas músicas um tanto bregas que me lembraram Pedreiras, os personagens,enfim, gostei muito.
. Estou lendo o último livro do Umberto Eco, O Cemitério de Praga. Desde o início é interessante. Quando terminar, falo mais.
. Dina Brandão vai lançar no próximo dia 29 um livro de poesias. Estou na espera.
. A presidente Dilma sancionou duas leis importantes, a Comissão da Verdade e a Lei de Acesso à Informação. Parabéns! Para ela e para nós. Nada de mistério, nada de sigilo.
. Francisca voltou de férias no Maranhão cheia de notícias alvissareiras: o "Programa Minha casa, minha vida" está movimentando a economia lá do interior. Ela vai até voltar pra lá, o que me deixa saudosa, mas fazer o quê? Até um hospital estão construindo lá em Bacurituba.
. E para não ficar só elogiando o Governo, é preciso repensar essa história da Usina Belo Monte. Entrei no site do Movimento gota d'água e fiquei impressionada com os depoimentos contrários. Não consegui por minha assinatura no documento, como desejo, por um erro meu. Vou tentar novamente assim que conseguir ajuda dos entendidos em internet. Procurem o site. É www.movimentogotad'água.com. Por favor, entrem mesmo.
. Fui ver, gostei e fiquei impressionada com o novo filme do Almódavar A pele que eu habito. Forte, chocante e muito bom. Um Dr. Frankstein à moda Almódovar. Haja coração!
. E o que me dizem vocês dessa campanha dos homens do poder se beijando? Não gostei, não me caiu bem.
José Saramago diz em entrevista que leio agora que “a gente, na verdade, habita a memória”. Acho essa afirmação verdadeira. Eu vivo o meu presente aqui em Brasília, e vivo também em muitos outros tempos. Uma música que toca no rádio, uma frase ouvida, um trecho lido me repete para longe, no tempo e no espaço. Frequentemente estou em Pedreiras na casa dos meus pais que já se foram há muito. João Véio molha as plantas do jardim, Teresa está na cozinha fazendo o almoço, e minha avó, sentada na sua cadeira preguiçosa, toma conta de tudo, pois não confia nas empregadas. Ela nutre muitas desconfianças. Desconfia dos amigos da minha mãe, dos nossos amigos, e, sobretudo de índio, que ela considera “um bicho traiçoeiro”. Embora em Pedreiras não tenha índios, ela não se esquece dos muitos anos vividos na sua terra, Barra do Corda, cercada de índios, os Guajajaras e os Kanelas, e de ter escapado de morrer no chamado “barulho dos caboclos”, que foi quando os índios atacaram o povoado de Alto Alegre, pelo ano 1 ou 2 do século passado e mataram todo mundo de lá, começando pelos frades e freiras. Por vezes penso que vivi essa história, de tanto que a ouvi nos meus primeiros tempos. Assim, vivo não só o tempo que vivi eu mesma, mas também os tempos dos outros, os seus muitos vividos que se tornaram nossos por ouvi-los muitas e muitas vezes. Agora nas tardes de sábado nós, uns cinco ou seis, nos reunimos para jogar pôquer aqui em casa. E nosso jogo é bom, a gente se diverte e noto que temos esse jogo real e muitos outros jogos que já foram jogados em outros tempos e com outros jogadores. Meu pai jogava muito até que, por artimanha de minha mãe, foi induzido a fazer uma promessa e deixar de jogar. Mas, certa vez, no tempo em que ainda jogava, precisava arranjar dinheiro para a viagem que minha avó fazia uma vez por ano à sua terra, para visitar seus filhos. E perguntou: “Dona Biluca, a senhora confia em mim?” E minha avó, confusa: “ Claro seu Francisquinho, como não hei de confiar?” –“ Então, me dê o dinheiro que a senhora tem e deixe o resto por minha conta”. Minha avó deu, sob protestos tímidos de minha mãe, e ele saiu. Voltou de manhã. Com o dinheiro inicial da minha avó e o restante necessário para a viagem. Deve ter sido uma grande noite e um grande jogo. Os nossos de agora não são tão emocionantes assim, mas são bons. E às vezes sinto por perto os irmãos que se foram, lembramos grandes jogadas, algumas paradas inesquecíveis, e muitos ditos que são saborosos por serem sempre repetidos quando as velhas situações se repetem, muitos dos quais nem sabemos a origem, como “ai, ai, minha roxinha!”, que dizemos ao chorar uma carta que pode ser a necessária para um flush. E como comecei com Saramago, termino com esse trecho dele, com o qual me identifico: “Vivemos num determinado lugar, mas habitamos outros lugares. Eu vivo aqui, em Lisboa, quando cá estou, e vivo em Lanzarote quando lá estou. Mas habitar, habitar, habito naquilo que seria - ou é - a aldeia. Não se trata, porém, desta aldeia, antes a aldeia da minha memória”. E aqui fico, por agora, no presente.